Thursday, October 31, 2013

Ruminações sobre possíveis laços entre a Psicologia e o Teatro do Absurdo*

      A função instigadora do Teatro é intrínseca ao seu movimento criativo e assim, onde quer que ele germine, acaba por aprimorar as relações entre os aspectos humanos que perpassam a sociedade e a cultura. Historicamente, o Teatro está envolvido no desenvolvimento sócio-cultural da humanidade como um mecanismo fundamental de comunicação, expressão e crítica.
       A definição de teatro de Leite (1975, p.13) como “(...) algo que nem mesmo os psicanalistas conseguem catalogar e para viver exige dupla personalidade consciente: uma que cria aberta, livre e até caoticamente, e outra que maneja a criatividade, instalando a ordem no caos”, já traz a tona as potenciais possibilidades de desdobramentos desta arte, tão complexa e tão cotidiana.
     Podemos entender a arte teatral como o vetor capaz de arrastar sua audiência para um espaço mágico no qual o espectador encontra uma abertura que o permite deparar-se com seus conflitos com tamanha intensidade que pode produzir-se aí um efeito de catarse, após o qual ele se sente renovado. Esta interação entre o trabalho cênico do ator e o a vivência do expectador, possibilita que ambos experimentem os mesmos fenômenos representados na cena e dela decorrentes (ROCHA, KASTRUP, 2008). Percebe-se aí que a relação com a Psicologia se faz não apenas possível, mas desejável, dadas suas potencialidades expressivas e  interpretativas e considerando a rica proposta de abertura para a descoberta existencial do homem que o Teatro traz em seu bojo.
 O Teatro e a Psicologia, de acordo com Crochemore (2002), têm aspectos comuns essenciais, pois ambos trabalham com o comportamento humano. Na medida em que o Teatro se propõe a imitar a vida, a Psicologia tem na vida seu objeto generalizado de investigação. É possível se observar hoje as interfaces destas duas áreas como ocorre no caso do Psicodrama, na área clínica, onde o Teatro é utilizado como recurso sistematizado de intervenção. Os desdobramentos possíveis, no entanto, transcendem a utilização do Teatro como um recurso pra fins psicoterápicos, possibilitando seu uso enquanto atividade parceira, como processo auxiliar para experimentações e projeções vivenciais de estudantes e profissionais da Psicologia.
     A função do Teatro progrediu, tornou-se mais abrangente, politizada e está mais próxima das realidades da comunidade. Atualmente, muitos grupos e artistas de Teatro não se satisfazem com o confinamento de sua arte e propõem um modelo de maior abertura e alcance popular. O desafio atual apresenta-se pela busca de novas formas de experimentar a vida aliando a representação cênica ao desejo que emerge dos grupos, da coletividade, se afirmando em um devir-político e se posicionando como veículo de transformação social (ROCHA, KASTRUP, 2008).
    O Teatro do Absurdo, surgindo a partir de influências do drama existencial e com raízes no Surrealismo, veio para contestar as representações clássicas, óbvias e estanques que predominavam sua época. Carvalho (s/d) esclarece que o Teatro do Absurdo é uma forma de negação ao posicionamento e às propostas de soluções claras e reducionistas pelo Teatro, frente às questões morais ou máximas prescritas pela sociedade. Assim, suas peças percorrem, de maneira geral, um caminho circular, pois terminam da mesma forma que começaram. A ideia é que nenhuma conclusão última emerja da vivência do espectador com a cena. O Teatro do Absurdo representa o homem angustiado e desesperado pela constatação de que não ele não conseguirá nunca conhecer sua verdadeira natureza que se revela uma escuridão impenetrável. Assim, não é possível o estabelecimento de normas comportamentais pré-estipuladas. Não é difícil, neste viés, fazer uma ligação direta com os propósitos e as preocupações da Psicologia enquanto Ciência do e para o homem que, como o Teatro do Absurdo, não pretende fechar conclusões, mas deixar caminhos.


REFERÊNCIAS

CARVALHO, F. O. O teatro do absurdo e a dramaturgia francesa do pós-guerra: diálogos e reverberações na cena brasileira de ontem e de hoje. Universidade Presbiteriana Mackenzie. s/d.

CROCHEMORE, M. Teatro e psicologia. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, RJ. 2002.

LEITE, L. B. Teatro e criatividade. Rio de Janeiro, Serviço Nacional de Teatro: 1975.

ROCHA, T. G., V. KASTRUP. A partilha do sensível na comunidade: interseções entre psicologia e teatro, Estudos de Psicologia. v.13, n.2, 2008.

*Recortes de um projeto natimorto.