A função
instigadora do Teatro é intrínseca ao seu movimento criativo e
assim, onde quer que ele germine, acaba por aprimorar as relações entre os
aspectos humanos que perpassam a sociedade e a cultura. Historicamente, o Teatro
está envolvido no desenvolvimento sócio-cultural da humanidade como um
mecanismo fundamental de comunicação, expressão e crítica.
A definição de teatro de Leite (1975, p.13) como “(...) algo que nem mesmo
os psicanalistas conseguem catalogar e para viver exige dupla personalidade
consciente: uma que cria aberta, livre e até caoticamente, e outra que maneja a
criatividade, instalando a ordem no caos”, já traz a tona as potenciais
possibilidades de desdobramentos desta arte, tão complexa e tão cotidiana.
Podemos entender a arte teatral
como o vetor capaz de arrastar sua audiência para um espaço mágico no qual o
espectador encontra uma abertura que o permite deparar-se com seus conflitos
com tamanha intensidade que pode produzir-se aí um efeito de catarse, após o
qual ele se sente renovado. Esta interação entre o trabalho cênico do ator e o a
vivência do expectador, possibilita que ambos experimentem os mesmos fenômenos
representados na cena e dela decorrentes (ROCHA, KASTRUP, 2008). Percebe-se aí
que a relação com a Psicologia se faz não apenas possível, mas desejável, dadas
suas potencialidades expressivas e
interpretativas e considerando a rica proposta de abertura para a
descoberta existencial do homem que o Teatro traz em seu bojo.
O Teatro e a Psicologia,
de acordo com Crochemore (2002), têm aspectos comuns essenciais, pois ambos
trabalham com o comportamento humano. Na medida em que o Teatro se propõe a
imitar a vida, a Psicologia tem na vida seu objeto generalizado de
investigação. É possível se observar hoje as interfaces destas duas áreas como
ocorre no caso do Psicodrama, na área clínica, onde o Teatro é utilizado como
recurso sistematizado de intervenção. Os desdobramentos possíveis, no entanto,
transcendem a utilização do Teatro como um recurso pra fins psicoterápicos,
possibilitando seu uso enquanto atividade parceira, como processo auxiliar para
experimentações e projeções vivenciais de estudantes e profissionais da
Psicologia.
A
função do Teatro progrediu, tornou-se mais abrangente, politizada e está mais
próxima das realidades da comunidade. Atualmente, muitos grupos e
artistas de Teatro não se satisfazem com o confinamento de sua arte e propõem
um modelo de maior abertura e alcance popular. O desafio atual apresenta-se
pela busca de novas formas de experimentar a vida aliando a representação
cênica ao desejo que emerge dos grupos, da coletividade, se afirmando em um
devir-político e se posicionando como veículo de transformação social (ROCHA,
KASTRUP, 2008).
O
Teatro do Absurdo, surgindo a partir de influências do drama existencial e com
raízes no Surrealismo, veio para contestar as representações clássicas, óbvias
e estanques que predominavam sua época. Carvalho (s/d) esclarece que o Teatro
do Absurdo é uma forma de negação ao posicionamento e às propostas de soluções
claras e reducionistas pelo Teatro, frente às questões morais ou máximas
prescritas pela sociedade. Assim, suas peças percorrem, de maneira geral, um
caminho circular, pois terminam da mesma forma que começaram. A ideia é que
nenhuma conclusão última emerja da vivência do espectador com a cena. O Teatro
do Absurdo representa o homem angustiado e desesperado pela constatação de que
não ele não conseguirá nunca conhecer sua verdadeira natureza que se revela uma
escuridão impenetrável. Assim, não é possível o estabelecimento de normas
comportamentais pré-estipuladas. Não é difícil, neste viés, fazer uma ligação
direta com os propósitos e as preocupações da Psicologia enquanto Ciência do e
para o homem que, como o Teatro do Absurdo, não pretende fechar conclusões, mas deixar caminhos.
REFERÊNCIAS
CARVALHO,
F. O. O teatro do absurdo e a
dramaturgia francesa do pós-guerra: diálogos e reverberações na cena brasileira
de ontem e de hoje. Universidade Presbiteriana Mackenzie. s/d.
CROCHEMORE, M. Teatro e psicologia. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, RJ. 2002.
LEITE, L. B. Teatro e
criatividade. Rio de Janeiro, Serviço Nacional de Teatro: 1975.
ROCHA, T. G., V.
KASTRUP. A partilha do sensível na comunidade: interseções entre
psicologia e teatro, Estudos de Psicologia. v.13, n.2, 2008.
*Recortes de um projeto natimorto.

