Sunday, October 27, 2013

Um Deus qualquer subjacente na culpa da humanidade

Penso no ser que depreda suas escolhas em nome de um conto já escrito, penso na conivência das escrituras apócrifas com a divisão dos pilares sociais na política, na economia, na subversão das classes. Penso no desalento de um grito natimorto do ser que especula, perscruta, indaga. Daquele que, demasiadamente inocente, quer escrever suas próprias lendas. Penso na efemeridade da coragem libertina deste ser, golpeado repentinamente nas costas com o grosso cajado da moral cristã soberana que exige aos berros e em um coro milenar a louvação esquizofrênica de seu séquito  Penso então na lucidez avassaladora de Sartre em suas investidas ao personagem Deus, quando este denuncia a necessária alienação do homem para a elevação do Deus detentor das verdades últimas. Se não há Deus o homem está livre de prescrições anteriores à sua existência, ele pode agora ser conceituado de acordo com suas agruras próprias. O enredo é seu e descreve suas escolhas, e, conforme Sartre, quando ele escolhe a si, escolhe (em uma situação de copertencimento) também a humanidade. O homem não pode mais ser lido por objetivações que lhe são externas e o julgar o outro é ato ineficaz e vazio, pois o mal e o bem não correspondem mais a conceitos pré-determinados de conduta. Até aqui acompanho Sartre em anuência aos seus depoimentos mais ácidos. Abandono-o, no entanto, quando este nega a possibilidade do tombar este Deus cerceador reclamando uma fatídica inadequação dos homens perante a possibilidade de uma permissividade absoluta. Acredito na habilidade do ser ao relacionar-se e entender a ética (dos homens, somente) como a base da civilidade e ainda, acredito que mais prejuízos trouxeram a noção de Deus para a humanidade do que contribuições para uma convivência pacífica e respeitosa. Este conto não pode ser dado, pré-idealizado, sem que se admita a abominação deste ato ditatorial. Destarte, meu discurso se resume a: dê ao homem, o que é do homem: o direito de ser dono de sua própria história. 


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