Um
Deus qualquer subjacente na culpa da humanidade
Penso
no ser que depreda suas escolhas em nome de um conto já escrito, penso na
conivência das escrituras apócrifas com a divisão dos pilares sociais na
política, na economia, na subversão das classes. Penso no desalento de um grito
natimorto do ser que especula, perscruta, indaga. Daquele que, demasiadamente
inocente, quer escrever suas próprias lendas. Penso na efemeridade da coragem
libertina deste ser, golpeado repentinamente nas costas com o grosso cajado da
moral cristã soberana que exige aos berros e em um coro milenar a louvação
esquizofrênica de seu séquito Penso então na lucidez avassaladora de Sartre em
suas investidas ao personagem Deus, quando este denuncia a necessária alienação
do homem para a elevação do Deus detentor das verdades últimas. Se não há Deus
o homem está livre de prescrições anteriores à sua existência, ele pode agora ser
conceituado de acordo com suas agruras próprias. O enredo é seu e descreve suas
escolhas, e, conforme Sartre, quando ele escolhe a si, escolhe (em uma situação
de copertencimento) também a humanidade. O homem não pode mais ser lido por
objetivações que lhe são externas e o julgar o outro é ato ineficaz e vazio,
pois o mal e o bem não correspondem mais a conceitos pré-determinados de
conduta. Até aqui acompanho Sartre em anuência aos seus depoimentos mais ácidos.
Abandono-o, no entanto, quando este nega a possibilidade do tombar este Deus
cerceador reclamando uma fatídica inadequação dos homens perante a
possibilidade de uma permissividade absoluta. Acredito na habilidade do ser ao
relacionar-se e entender a ética (dos homens, somente) como a base da civilidade
e ainda, acredito que mais prejuízos trouxeram a noção de Deus para a
humanidade do que contribuições para uma convivência pacífica e respeitosa. Este
conto não pode ser dado, pré-idealizado, sem que se admita a abominação deste
ato ditatorial. Destarte, meu discurso se resume a: dê ao homem, o que é do
homem: o direito de ser dono de sua própria história.

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